quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Félix Castillo no CTFIS


No passado dia 8 de agosto no espaço/tempo de Supervisão habitualmente conduzido pelo Dr. Carlos González, o supervisor técnico do CTFIS, tivemos a presença do Prof Félix Castillo, Director do Máster em Coaching Sistémico da Universidade Autónoma de Barcelona.

Foi apresentado um caso por duas técnicas da equipa de Terapia Familiar, e o Grupo foi composto por membros desta equipa e da Equipa de Integração Familiar.

Foi interessante a forma como foi conduzida a reflexão sobre o caso, uma vez que não foram explorados dados informativos do caso em si. Foi feita sim, uma exploração cuidadosa das emoções das técnicas que acompanham o caso. E como esta reflexão permitiu uma nova perspetiva sobre o caso.

No final, o Prof. Félix Castillo transmitiu ao grupo informação sobre o projeto de Coaching Social que está a ser desenvolvido em Barcelona.

“O Coaching propõe um olhar orientado ao que está presente e funciona, aos recursos, ao que se pode aproveitar e utilizar. Outra proposta do Coaching é a de podermos recuperar a responsabilidade sobre aquilo que nos acontece.

No âmbito deste projeto é proposto às equipas que desenvolvam um recurso que está nelas próprias e que tem a ver com, centrar-se no usuário, mas a partir da experiência do técnico. A partir da forma como o técnico se sente em relação ao caso; como se sente em relação aos colegas com os quais está a trabalhar no caso, sejam da própria instituição ou de outra; da forma como o técnico se sente em relação ao contexto no qual tem que desenvolver o seu trabalho, e desta forma então poder decidir sobre as intervenções mais úteis.”

 

O Dr. Carlos Gonzalez partilhou um poema de Rumi:

O “ser humano” é uma casa de hóspedes.

Cada manhã é uma nova visita.

Uma alegria, uma depressão, uma maldade,

Um momento de consciência momentânea aparece

Como uma visita inesperada.

Dá-lhes as boas vindas e entretém-nos a todos!

Mesmo que seja uma multidão de mágoas,

Que violentamente tomam a tua casa vazia de mobília,

Mesmo assim, trata honradamente cada hóspede.

Ele pode estar a limpar-te

Para que possas receber uma nova alegria.

O pensamento obscuro, a vergonha, a malícia,

Recebe-os à porta rindo,

E convida-os para entrarem.

Sê grato por quem quer que entre,

Porque cada um foi enviado,

Como um guia do além.

Rumi

 

Pela abertura e partilha das técnicas que apresentaram o caso, pela qualidade da condução do grupo pelo Prof. Félix Castillo, pela participação rica do Dr. Carlos Gonzalez, pela complementaridade que se criou entre as aportações de ambos e pela qualidade acolhedora do Grupo, construiu-se um ambiente de aprendizagem grupal e individual, em que se alimentaram as relações e inter-relações.

Uma tarde cálida de Agosto em que não demos pelo passar do tempo. Pela minha parte agradeço a tod@s.

Joana Vasconcelos

 

terça-feira, 23 de julho de 2013

A Sistémica e o Budismo – que semelhanças?!....


A uma primeira vista, juntando estes dois campos do saber, a primeira reação é afirmar que não existe qualquer relação ou pontos em comum, principalmente se insistirmos em manter uma visão mecanicista e redutora da Ciência, em que os campos do saber e do conhecimento se restringem ao observável, fatual e objetivo. No campo da experiência humana, sabemos agora em pleno século XXI, que esta visão em nada ajuda a uma compreensão holística da complexidade inerente ao funcionamento humano, em todas as vertentes que ele implica.

A Sistémica revolucionou o campo da Psicologia e afins, ao buscar conceitos da Física, da Antropologia, etc, na procura de uma explicação cada vez mais satisfatória daquilo que efetivamente é e poderá ser a experiência humana, a compreensão da realidade e a captação do mundo que nos rodeia. Ao se deixar influenciar por todas estas áreas, que de simples, nada possuem, aumenta naturalmente o nível de complexidade na exploração e compreensão dos fenómenos a que se propõe estudar.

Por outro lado, o Budismo; considerado erradamente por alguns, como a “religião das elites”, este campo filosófico vai muito mais além dos critérios que definem uma religião. O Budismo é sim, uma Filosofia de vida, de compreensão da mente e experiência humanas, considerado como a verdadeira “Ciência da Mente” (National Geographic, 2009). As raízes daquilo que viria a ser o Budismo remontam a 2500 a.C., na Índia, onde o primeiro passo para a construção desta Filosofia surgiu paralelamente ao nascimento de Sidharta Gautama, que viria a ser intitulado, 30 anos após seu nascimento, o “Buda”, ou o “iluminado”. Esta terminologia nada mais é, do que fruto das suas experiências, das suas vivências e das interpretações ele lhes viria a dar. A própria biografia de Sidharta daria uma bela interpretação sistémica daquilo que é a existência humana, os vários ciclos de vida pelos quais passamos, etc.

Para alcançar os objetivos propostos para esta reflexão, podemo-nos debruçar na exploração de dois conceitos centrais no Budismo e que apesar de não utilizados diretamente na sistémica, facilmente se perceberá a influência e importância que nela têm. O que nos importa aqui reter é mais o conteúdo do que propriamente a forma.

Os conceitos de Interdependência e Vacuidade facilmente cumprirão esse objetivo. Senão vejamos: estes dois conceitos remetem para dois aspetos da mesma coisa, são conceitos básicos filosóficos, específicos do Budismo, que remetem para a compreensão dos fenómenos, que pressupõem a não existência de uma essência sólida nos mesmos, uma vez que implicam uma interação entre os objetos para que possam se manifestar. No fundo, subentende-se que a forma como concebemos as coisas não é a forma real de como as coisas são, ou seja, cada fenómeno altera a sua condição conforme o contexto em que está inserido no momento. Aqui se encontra uma das primeiras associações claras: a noção de contexto, que poderá ser uma interpretação do conceito de interdependência. E não é a noção de contexto um dos pilares da sistémica?

A existência dos fenómenos é dependente da relação estabelecida entre os fatores que os compõem; ou seja, o todo influencia as partes e as partes influenciam o todo. Além de que todos os fenómenos existem em interdependência uns com os outros.

Esta reflexão sobre o conceito de Interdependência, Contexto, etc, poderá remeter para um dos termos introduzidos pelo percursor da sistémica, Gregory Bateson“o padrão que liga” - que é a meu ver, o conceito mais importante e mais abrangente dentro desta linha de pensamento. O “padrão que liga” surge da sua importante obra “Natureza e Espírito”, em que entre tantas outras coisas, Bateson reflete sobre a influência que todos os fenómenos têm na manifestação uns dos outros e no facto de ser impossível, um fenómeno existir independentemente do outro. No Budismo, uma das ideias centrais é esta mesma, o facto de todas as coisas estarem interligadas e interdependentes umas das outras; facto também defendido amplamente pela Física Quântica e que muito tem contribuído para uma compreensão dos fenómenos, quer físicos, quer psíquicos e até sociais. Ou seja, esta interdependência existe desde o mundo subatómico, ao mundo biológico a toda a manifestação cosmológica; os átomos influenciam-se, assim como os organismos, assim como os astros e vice-versa e estas interinfluências poderiam continuar a ser aqui descritas infinitamente.

Um outro conceito que surge associado aos anteriores, é o de Impermanência e que remete para a noção de que “nada é permanente, estático ou constante”; tudo o que existe está em constante mutação e transformação, logo, a estabilidade é algo utópico. Aqui podemos remeter para os conceitos sistémicos de entropia e negentropia, em que a busca de um funcionamento equilibrado é o objetivo de qualquer fenómeno; nesta busca, a mutação é constante e inacabada; esta noção pode ser facilmente aplicada ao campo na experiência humana e do autoconhecimento também.

Na exploração das Quatro Nobres Verdades do Budismo, podemos também encontrar alguns pontos em comum com a teoria sistémica e na interpretação que a mesma faz da Experiência Humana, senão vejamos:  

1.      Tudo é sofrimento;

2.      A causa do sofrimento;

3.      A cessação do sofrimento é possível;

4.      O caminho que leva à cessação do sofrimento.
 

Numa exploração superficial destas premissas, podemo-nos focar na reflexão do conceito de “sofrimento”, em que o Budismo nos diz que o mesmo é inerente à nossa condição humana, uma vez que ao interpretarmos a realidade, erradamente procuramos satisfação plena em fatores e elementos exteriores a nós próprios, logo, a felicidade nunca é encontrada na sua forma mais genuína. Na busca de uma explicação para a causa do sofrimento, surge o conceito de Ignorância, no sentido da ausência de conhecimento e de compreensão. Esta ignorância leva a uma interpretação errada da realidade e dos fenómenos que nos rodeiam, resultando no dito sofrimento; ou seja, o ser humano, não vivencia nada que não seja imediatamente interpretado, como positivo ou negativo. Esta interpretação é ainda mais evidente quando a realidade com que nos deparamos é vivida em função das experiência anteriores.

Esta interpretação da realidade é fruto de três filtros: as experiências vividas (Karma), as emoções e as tendências habituais, ou seja, uma certa predisposição para…Não remeterão estas afirmações para o conceito de realidade múltiplas, tão defendidas na sistémica e tão fundamentais na compreensão dos fenómenos experienciais? Não remeterá também para o conceito de Narrativas e da influência inegável destas na compreensão da Vida?

Como se pode constatar por esta reflexão, a ciência, como área do conhecimento que tenta compreender os fenómenos, sejam eles quais forem, em muito tem a ganhar ao abrir seus horizontes a outros campos do Saber, designadamente ao campo da espiritualidade e filosofias Orientais.

O Oriente já há milénios que coloca as mesmas questões que a Ciência Moderna, no Ocidente tem feito nos últimos dois séculos…não teremos a ganhar em procurar dentro destas tradições algumas das respostas que julgamos não existirem? O conhecimento objetivo é uma falácia dentro das áreas que se debruçam do Ser Humano…não estará na altura de mudança de paradigma?

  

Por Eneida Cardoso

Junho, 2013

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Trabalho Corporal e Terapia



Na passada semana de Junho, entre os dias 11 e 14, teve lugar no Ateneu Criativo em Ponta Delgada, o Workshop de “ Trabalho Corporal e Terapia”, dinamizado por Guadalupe del Aldea bailarina contemporânea e psicoterapeuta. 

            O início, para mim, foi marcado por várias expectativas. Por desejar alcançar o conhecimento pela técnica, pelos instrumentos, que se podem aplicar no trabalho com as famílias. Mas antes de profissional, senti-me pessoa, como diria a Guadalupe “antes de cuidar é preciso cuidar-nos”.

            Num trabalho em que a principal ferramenta são as emoções e sentimentos, foi importante para mim perceber a importância do corpo como veículo da sua expressão. Colocar-me em diferentes papeis, vestir vários personagens, sentir inúmeros sentimentos e emoções, ora positivos  ora negativos, fez-me estar mais consciente de ser pessoa e portanto estar viva.

            O movimento comigo mesma, com o outro e em grupo ou a imobilidade, permitiu-me experienciar diferentes sensações, assim como o impato do outro e a minha reação ao mesmo. Uma troca contínua entre o dar e o receber. Facilitou a consciência de cada parte do corpo e de como o espírito às vezes dele se apodera, de como a expressão corporal pode ser tão libertadora, quando as palavras não chegam...

            Como diria Kierkegaard: “Vivemos as nossas vidas para a frente, mas só as compreendemos apartir de trás.”

            Olhando agora para trás, o fim deste workshop afigura-se longíquo... É antes o começar de um processo em que a expressão de afetos, sentimentos e emoções é um contínuo desafio, e em que cada um irá trilhar o seu caminho nessa descoberta.

Eva Cardoso

sábado, 25 de maio de 2013

Pedra no Caminho

Há algum tempo atrás li algures uma lenda que rezava algo mais ou menos assim:
Havia um rei muito sábio que não se poupava a esforços para ensinar bons hábitos ao seu povo e para isso fazia com frequência coisas aparentemente estranhas.
-Nada de bom pode vir para uma nação, cujo o povo reclama e espera que os outros resolvam os seus problemas. As coisas boas acontecem a quem lida com os seus problemas – dizia ele.
Certa noite enquanto todos dormiam, ele colocou uma pedra enorme na estrada que passava pelo palácio. Depois escondeu-se atrás de uma cerca para ver o que acontecia.
Pela manhã, veio um agricultor na sua carroça carregada com sementes para entregar no palácio:
- Onde já se viu isto?! - disse contornando a pedra – Estes preguiçosos não retiraram esta pedra! - e prosseguiu o caminho, reclamando da inutilidade dos outros, sem contudo, ele próprio tocar na pedra.
De seguida, passou um soldado que cantando pela estrada, tropeçou na pedra e caiu.
- Bolas! - vociferou enquanto pontapeava a pedra e atirava terra para o ar, irado pela irresponsabilidade e insensatez de quem não tirava dali a pedra.
Todos os que por ali passavam reclamavam indignados pela presença da pedra no caminho.
Ao cair da noite, a filha do moleiro, cansada da sua jornada de trabalho, percorria a estrada do palácio. Ao ver a pedra estacou e disse:
- Está a anoitecer, podia ter caído aqui! E se a pedra amanhã ainda aqui estiver ainda posso cair ou pode alguém também cair e magoar-se. Vou tirar esta pedra daqui!
Tentou arrastar a pedra, mas era tão pesada...Então empurrou, empurrou e empurrou e ainda que aos bocadinhos de cada vez e levando bastante tempo conseguiu dali retirar a pedra. Eis que então, no lugar onde a pedra estava descobriu para sua surpresa, uma caixa. Levantou a tampa e leu: Esta caixa pertence a quem retirar a pedra e olhando para o seu interior viu que se encontrava repleta de ouro.
Quantas vezes nos deparamos com pedras no nosso caminho e quantas vezes as evitamos, contornamos, reclamamos por existirem, por alguém as ter lá posto e por nada acontecer para que deixem de lá estar. Contudo, esquecemos-nos ou não queremos ver que temos também responsabilidade na sua permanência no nosso caminho. Muitas vezes o medo de retirarmos as pedras do nosso caminho mantem-nos prisioneiros de situações que não nos satisfazem, ao fim ao cabo, não sabemos o que está para lá da pedra, não sabemos o que vai ficar se a retirarmos e mantemo-nos então "confortavelmente" instalados no desconforto, na incerteza, na dor, no sofrimento...Outras vezes, sentimo-nos incapazes e fracos para as removermos sozinhos ou até achamos que se elas ali estão, nada mais há a fazer do que parar de caminhar.
A terapia constitui-se como forte aliado para olharmos para as pedras que nos incomodam e nos dar uma nova visão tanto delas, como do desconhecido que está para além e no lugar delas. A terapia ajuda a encontramos dentro de nós " a filha do moleiro".
Elisabete Gomes

terça-feira, 21 de maio de 2013

Uma manhã com… a EIF




    A equipa de integração familiar (EIF) promoveu nos dias 8 e 15 de abril de 2013 um encontro intitulado “Uma manhã com… a EIF” junto da equipa multidisciplinar de apoio aos tribunais (EMAT), comissões de protecção de crianças e jovens (CPCJ´s) e núcleos de acção social (NAS) locais, equipas estas que se constituem, na maioria dos casos, os principais parceiros da EIF.
    Assim sendo, este encontro teve o propósito de dar a conhecer, de uma forma mais aprofundada, aquele que é o trabalho da EIF junto de famílias com crianças e jovens com processos de promoção e proteção, bem como reforçar a importância dos contributos do trabalho em rede neste âmbito, este último gerador da partilha de visões que contribuíram, a meu ver, para uma maior conexão dos técnicos, que afinal têm todos como objetivo comum uma intervenção familiar concertada e eficaz.


    Cristina Carreiro


segunda-feira, 29 de abril de 2013

O Pequeno Ditador – Da criança mimada ao adolescente agressivo


O psicólogo Javier Urra, defensor das crianças e jovens e que trabalha há mais de 20 anos com crianças conflituosas, vem com este livro ajudar os pais para que não temem os seus filhos e para que estes não sofram uma errada ou nula educação. Este autor ensina-nos os três pilares fundamentais para educar os nossos filhos: Autoridade, Competência e Confiança.

É preciso educar no respeito e afeto, transmitir valores, falar com as crianças, ouvi-las, ensiná-las a aceitar as frustrações, impor limites e exercer a autoridade sem medo. É preciso recorrer a ajuda especializada sem vergonha”.

Para refletir passo a citar uma passagem deste livro:
(…) As crianças que têm uma atenção excessiva frequentemente não conseguem ser independentes e aborrecem-se quando brincam sozinhas (…). A criança requer tempo livre para que aprenda a responsabilizar-se pelas suas próprias atividades e é necessário que a criança se aborreça para que gere outras ideias”.



segunda-feira, 22 de abril de 2013

A história da minha família e os seus membros de 4 patas


Ler a publicação da semana passada e o artigo de Froma Walsh sobre os membros da família de quatro patas, para além de ter sido uma delícia, fez-me pensar na minha própria experiência nesse campo, que hoje partilho aqui convosco na esperança de exemplificar na prática o que foi escrito a semana passada.

Tal como a autora da referida publicação, os animais de estimação, no meu caso os cães, desde cedo fizeram parte da minha vida. O primeiro cão que tive chamava-se Paquito e tinha claramente como função proteger-nos e à nossa casa de possíveis intrusos, a relação de afectividade com ele era muito pouca. Quando este cão morreu, tendo eu recebido a versão infantil do acontecimento, “ele fugiu...”, arranjamos o Tim-Tim. Tal como o Paquito, o Tim-Tim era um típico “cão das vacas” (como se diz por cá nos Açores) e a sua função era a de nos proporcionar segurança na nossa própria casa. O terceiro cão que tivemos, um cão traçado de caniche chamado Cajú, transformou o nosso relacionamento com os cães, ele tornou-se claramente um elemento da família com direito a ter a sua caminha dentro de casa, a ter mimos, a ter hábitos que todos respeitávamos e até a viajar connosco nas férias!! Posteriormente, tivemos ainda um pastor-alemão, o Wisky, que veio substituir o Tim-tim na sua função de proteção mas com quem já estabelecemos uma relação afectiva muito maior.

Da minha infância saliento, para além da companhia, a função protetora que muitas vezes é depositada nos cães e quão importante é esta função para o nosso bem-estar. Para além disso, e tal como é referido no artigo de Walsh, a morte do Cajú representou, para mim, a primeira perda de alguém significativo, com esse acontecimento aprendi a chorar alguém querido, a ter de me lembrar que não era possível estar a ouvir as patinhas dele a andar na tijoleira, pois ele já ali não estava, fui incapaz de visitar ao local onde o enterraram, juntamente com a sua cama e coberto na sua mantinha, tal como era incapaz de ir aos cemitérios. Passado algum tempo, aprendi a aceitar o que acontecera e a arranjar estratégias para ultrapassar essa dor. Outra situação curiosa que o artigo também refere é o facto de me lembrar do aniversário dos meus cães e de lhes oferecer um ossinho ou um brinquedo, de igual forma no Natal, a título de brincadeira, damos prendas em nome dos nossos cães!

A minha vida continuou e mantive a convicção “Quando for grande quero ter cães!”. Assim foi, já adulta, passado um mês de eu e o meu namorado estarmos a viver juntos recebi a melhor prenda de Natal de sempre dos meus pais e irmã, um labrador amarelo chamado Snickers. Tal como refere Walsh no seu artigo, com o crescimento do Snickers aprendi a acompanhar as diferentes fases do seu desenvolvimento, desde o tipo de alimentação correta em cada idade, o cair dos dentes, os brinquedos, as regras, as responsabilidades, os castigos, os deveres … O que hoje mais recordo dessa época é o sentimento de felicidade imensa que sentia quando chegava a casa, depois de ter um dia péssimo, e o via claramente feliz, a abanar a cauda, dirigindo-se para mim.
Recentemente, adoptamos uma cadelinha traçada de caniche e podengo, a Nina. Dei por mim com ela ao colo e tentando orientar o Snickers a fazer ou não fazer algo, pensando “Credo pareço mesmo uma mãe de 2 filhos”. Dizia muitas vezes a familiares e amigos “Parecem mesmo crianças, isto é um treino para ter filhos!”, mas sempre com algum receio que me achassem maluca por comparar um cão com uma criança, embora várias amigas confirmassem também sentir o mesmo.


Se a nossa relação com os nossos animais de estimação serve para aprendermos coisas sobre nós próprios, de igual modo, permite-nos conhecer melhor os outros, por exemplo, quando observo o meu namorado a interagir e mesmo falar com os nossos “patudos”, quando partilhamos as preocupações com eles, as idas ao veterinário, penso automaticamente “Ele vai dar um óptimo pai!”.

O artigo da Froma Walsh, ao explicar que esta relação humano-animal, veio confirmar que a minha experiência e os meus sentimentos (com certeza os de muitas outras pessoas) são reais e normais, que ter animais de estimação ajuda a preparar o nosso futuro, nos ensina e treina para diversas coisas e permite adquirir ferramentas importantes para o nosso dia a dia e para a relação com o outro. Para além disso, agora já posso explicar cientificamente à minha mãe esta adoração por animais quando ela me voltar a dizer “Mais um cão...assim nunca mais tenho um neto!”. :)

C.T